Terra e Vento (um equilíbrio) – Sá da Costa Gallery, Lisbon

A artista Marta Sampaio Soares (Lisboa, 1968) apresenta na exposição Terra e vento (um equilíbrio), na Galeria Sá da Costa, um conjunto de desenhos realizados nos anos de formação, entre 2010 e 2011, em vários formatos e recorrendo a diversas técnicas.
O desenho será porventura a expressão artística e plástica mais próxima da escrita e mais diretamente ligada a um pensamento intelectual, mas também ao campo do sensível. Nesta sucinta definição pode-se inserir o trabalho de desenho que a artista desenvolveu durante a sua formação no Ar.Co - Centro de Arte e Comunicação Visual, em Almada e que deu seguimento no Chelsea College of Arts, em Londres. Através da experimentação de pequenas alterações e subtilezas, a artista vai criando um alfabeto gráfico que estabelece uma linguagem própria e ensimesmada. Os elementos fundamentais do desenho, como a linha, a textura, a cor, a sombra, são revelados por decisões que tanto reforçam um pensamento teórico sobre a experiência, como também, e especialmente, sobre as sensações do mundo vivido e dos sentimentos por ele nutrido. Os traços obsessivos, as texturas prazerosas, as manchas subtis, as cores inebriantes, os ritmos precisos e as formas simples, no seu conjunto, compõem desenhos que tendem a edificar um difícil equilíbrio entre dois mundos instáveis. Por um lado, a terra sempre volátil e composta por diversos elementos não controláveis, por outro lado, o vento como algo etéreo que não se deixa alcançar, nem tão pouco representar. É nesta ténue fronteira que os desenhos da artista parecem querer construir uma identidade própria que, através da mão que percorre os dois mundos, vai desvendado um inconsciente sempre presente e desvelando uma consciência latente.
O gesto de trazer a público estes desenhos, realizados há mais de 10 anos, revela uma nova possibilidade e um novo olhar. Ao resgatar a memória da sua execução, a artista expõe a sua própria identidade, através das suas potencialidades e das suas fragilidades. Sem juízo de valor, e sem hierarquia, ambas as características fazem jus a uma expressão em constante mutação. É sempre ao sabor da incerteza e da dúvida que é possível construir algo de novo e imprevisível.

Hugo Dinis

O gesto, o silêncio, o gesto, a tinta, o gesto, a gota

Na arte performativa o referendo é muito contundente, é uma a arte apropriacionista, o artista apodera-se do outro para a construção do seu trabalho artístico. A artista plástica Marta Sampaio Soares explora este conceito a partir do silêncio e da repetição do gesto. Citando a artista ”Na performance, o silêncio acontece com o gesto de embeber e deixar escorrer as gotas de tinta, mais rápidas ou lentas, grossas ou finas, até caírem na lata de tinta ou papel.”
A instalação Deixar cair a pedra no lago, a tinta no chão localizada no corredor da geologia é a memória do gesto da artista, gestos criados para perdurarem no tempo, consciencializados e fixados nos vestígios deixados. É a percepção da abstracção, como compreensão do ponto de vista mais conceptual da linguagem. Existe uma convicção forte daquilo que são as marcas, da própria materialidade, dos próprios gestos e do próprio corpo, antes de serem performativas.
Este projecto artístico vem na sequência do trabalho anterior da artista onde a questão do automatismo formal e a valorização do tempo se conjugam numa linguagem por vezes materializada em pinturas, esculturas ou desenhos ou como é o caso da presente exposição num acto performativo. A efemeridade que se impõe no acto é transportada e fixada como exposição. 
“Definir a eternidade como uma quantidade maior que o tempo e maior mesmo do que o tempo que a mente humana pode suportar em ideia também não permitiria, ainda assim, alcançar sua duração. Sua qualidade era exactamente não ter quantidade, não ser mensurável e divisível porque tudo o que se podia medir e dividir tinha um princípio e um fim. Eternidade não era a quantidade infinitamente grande que se desgastava, mas eternidade era a sucessão.” (Clarice Lispector, in Perto do Coração Selvagem)
Nesta performance e posteriormente na instalação, é a sucessão de gestos que a enaltece e que lhe dá consistência. Herdeira dos movimentos happening e fluxos dos 50, 60 nos vários domínios culturais, extensiva à vida quotidiana com o objectivo de promover uma transformação social profunda. Onde a arte está ligada à vida e o objecto artístico não é um bem comercial.
Ao estarmos num museu de ciência faz mais sentido a realização desta instalação, enquanto acto experimental, continuando a citar a artista ”O silêncio que ocorre durante o processo, numa repetição por vezes extenuante, tal como a de Marie Curie, instaura um sentido num território liberto do que é excessivo. Um lugar que resiste ao excesso do quotidiano. Um espaço de abandono, de despojamento, de espera de quem quer conhecer uma verdade material ou estética. O gesto performativo simples é repetido e como no processo científico, o acidental e o impreciso dão sentido ao desconforto de horas de observação ou manuseamento, aqui na performance de desconforto físico, compondo nuances, aceitando desvios, desafiando a perícia.”
Deixar cair a pedra no lago, a tinta no chão é como uma longa caminhada, onde o sacrifício se impõe com a sucessão de gestos levados à exaustão, é como caminhar sem caminhar, pelo espaço, pelo ambiente, pelo museu, nos seus corredores e criar marcas, mesmo que estas se apaguem com o tempo.

Sofia Marçal

P a r e d e – m e i a for FEA Lisbon

Duas artistas em permanência,
duas salas de trabalho, contíguas, iguais no desenho e área.
Durante o período que medeia a integração do projecto no festival e a abertura ao público, as duas artistas terão, como proposta de relação, a parede  que divide os seus dois espaços de trabalho.
Essa parede será, por isso, um lugar de reflexão, um plano, físico e metafórico, a partir do qual o seu corpo de fazedoras se posicionará em exercício de escuta quer da face da parede sua, quer da face outra, rodado o corpo de cada uma, em afastamento ou mergulho, nessa espécie de grande espelho opaco.
Propõem-se, portanto, uma consciência íntima (individual, eventualmente, a duas ) da parede, como plano que separa e une.
Colocada no exterior dos dois ateliers, no lugar da extremidade, a terceira artista (a convidada) recebe, a meio do seu corpo alinhado, a espessura comum aos dois lados da parede - meia.

Armanda Duarte – 29 de março de 2019

Performance “Dripping”

A performance “Dripping” de Marta Sampaio Soares nasce do gesto que se repete na criação de uma obra de arte ou de um elemento artístico, como pode acontecer num atelier
O corpo que repete o gesto até à exaustão dá corpo a uma outra forma, constrói um outro corpo, cada um espelhando o outro, reflectindo o gesto e a intenção, a obra de arte estando tanto no objeto que se constrói, camada após camada, como no gesto.
O gesto e o objeto tornam-se também desenhos no espaço, demarcados, além disto, pelas cores.
Em todos estes elementos e no processo há o factor do acidente e do imprevisto, que com esta performance é trazido do atelier para a galeria. E se bem que com o gesto repetitivo forma-se matéria e técnica, o que está igualmente presente na performance, na repetição do gesto e na obra de arte, é um estado emocional.

Eva Oddo

Repetição, Sá da Costa gallery

“A arte não pode ser desligada dos gestos que a produzem.”

Os desenhos e as esculturas presentes na exposição são o resultado de gestos performativos repetidos até à exaustão do corpo; é nesse ponto que o gesto encontra um ambiente de abandono produtivo - a repetição, ela própria, que se torna método e estilo.
A resiliência física adquire-se ao longo deste processo.
O acidental e o impreciso dão sentido ao desconforto, compondo nuances, aceitando desvios, desafiando a perícia. Creio por isso, que riscar, embeber, deixar escorrer, sobrepor, gestos realizados horas a fio, disfarçam uma procura permanente do depois, uma ansiedade perante o todo diverso, o imperativo de afastar comportamentos e regulamentos.
No meu caso, creio que a máquina não conduz este processo tão bem como o corpo que se transforma em máquina.

Marta

, Virgula / Comma, Geological Museum, Lisbon

Conheci um senhor que escrevia sem usar vírgula, e escrevia, porque a ausência é muitas vezes mais forte que a presença. Mesmo assim, quando virgulo evito esta espécie de sentimento de privação que quem está dormente necessita para sentir. Hoje sentimos pouco o ter simples. Gostamos de quem nos priva de sentimentos nobres, preferimos as prisões. Estes desenhos são a simplicidade livre. A vírgula plástica do meu caminhar, dos meus escritos em branco, dessas folhas desejosas de receber a cor. 
Atiro a vírgula aqui tal como atiro a tinta nos desenhos cromáticos. São momentos de concentração, de desprendimento da forma, de colocar-me toda nesse gesto. Uma espécie de nervosismo antecede esse rito, esse enfatizar de tudo o que posso e quero. 
Virgulei sem saber como. Vesti-me dessa espécie de pausa que me grita ao acordar. Virgulei para separar a palavra da cor que se aplana bem na minha frente. Joguei o vermelho quente por cima das mantas em cima da minha cama. Sei que só uma vírgula pode pausar bem um texto, e assim enfatizo delicadamente o que encontro na alma, cada vez mais mecânica, que se move de acordo com a sua vontade independente de mim, do meu buscar. 
Conheci um senhor que usava vírgulas a torto e a direito. Ele brincava visualmente com os textos e o leitor andava aos solavancos por essas páginas que vão ficando para trás. Mas eu talvez prefira esta espécie de escrita enfática que nos provoca calafrios e marca as camadas da nossa sensibilidade. Que nos pára, que nos questiona. Hoje virgulo por detrás daquele estendal que acolhe tecidos já velhos, virgulo até não querer mais, até ver a cor intensa que me desperta sensações várias debaixo de uma folha de papel bem fina. Sim, António, eu sei que a vírgula marca pausas e inflexões, enfatiza e separa; falamos de ritmo, de plasticidade. Agora acrescentei um ponto e virgula! Inteligente esta ênfase da vírgula, não achas? Inteligente o lilás, o azul e o verde que dizem o que não sei escrever.

Marta

, é a pontuação da cor que marca o ritmo da expressão plástica destes dois autores. Uma conversa entre os trabalhos abstractos dos dois artistas, que jogam cromaticamente no espaço.
Guilherme e Marta têm o mesmo ponto de partida – a cor e a luz num encontro de rugosidades reverberantes. Tendo estudado juntos e partilhado atelier, apesar da diferença geracional, afirmaram sempre esta característica nos seus trabalhos.
Duas perspectivas de pausas e inflexões, do enfatizar e separar. Um ritmo e uma plasticidade que articulam intuitivamente cor e material, sugerindo um lugar de calma e equanimidade.

Marta e Guilherme

About the work

Coloquei-me sobre a mesa esconsa da minha vida. Nela me posei toda e um líquido quente escorreu do meu corpo partido. Do relógio de parede soltaram-se vozes síncronas que me soaram nuas de palavras necessárias. Senti, como aqueles que olham uma refeição farta, o desejo por quentes pratos enformados melancolicamente e deixei-me ficar numa espera de quem não sabe porquê. Ao nascer do dia o meu corpo tinha escorrido inteiro por baixo da mesa iluminada pela manhã solarenga. Peguei as partes e uni-as com a confiança do herói inaudito. Unida de toda a esperança madura que nos aquece a alma sobrevoei o sonho que nos acompanha por vezes, quando devidamente acorrentado.

I lay down on the rickety table of my life. There I laid down whole and a hot liquid leaked from my broken body. From the Wall clock synchronised voices echoed, seeming to me empty of any necessary words. I felt, like those that looking at a full meal, wish for warm dishes sadly made and I let myself wait for I knew not what. At sunrise my whole body had poured under the table lit by the sunlit morning. I caught the pieces and joined them together with the unprecedented confidence of heroes. With all the mature hope that warms the soul, I flew over the dream that accompanies us, sometimes, if properly chained.

Marta

About the work

Inscrita sem saber porquê, inscrita de uma natureza estranha, inscrita antes da própria inscrição que apenas muito tarde se conhece. A dúvida que existe quando se procura antes da inscrição nos pertencer. A dúvida não maturada na intuição de um destino, não de factos mas de emoções. Não é dúvida é desconhecimento da inscrição, não é dúvida é ausência de intuição interior. Só no centro da inscrição podemos anular a dualidade, a dualidade que existe quando a força do contra-destino actua, e actua sempre, enquanto esse contra-destino não tem forma nem nome.

Inscribed not knowing why, inscribed of a strange nature, inscribed before the very inscription that only late is recognized. The doubt that exists when searching before the inscription becomes ours. The doubt not matured by a destiny’s intuition, not about facts but emotions. It is not doubt but inscription unawareness, it is not doubt but intuition absence. Only in the centre of the inscription we can nullify duality, the duality that exists when counter-destiny strength operates and it always operates while counter-destiny has no shape and no name.

Marta

About the work

Manchas vermelho escuro, acastanhado, em formas sobrepostas, corpóreas, viscerais, que se me agarram à pele, ao sentido do tacto, e aí sim dá-se a vibração. Um espasmo, uma gosma pingando sobre as que já lá estão. Contorce-se, acasala, a mancha é quente, é redonda, penetra na pele e toca o espírito.

Dark red stains, brownish, in overlapping shapes, bodily, visceral, that stick to my skin, to my touch and there, then, the vibration happens. A spasm, a thick goo leaking onto those already there. It twists, mates, the stain is warm, round, penetrates the skin and touches the spirit.

Marta